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sábado, 10 de setembro de 2011

TODOS SOMOS FIEIS



Desde guri ouço a propagação das maravilhas da torcida do Corínthians: “não é o time que tem a torcida, é a torcida que tem o time”, torcedores fieis “que sempre empurram o time”, a mística das vitórias sofridas, dos jogadores guerreiros, da “camisa que jogava sozinha”, como disse Antoine Gibran, descrendo da possibilidade de rebaixamento em 2007.


A mídia, interessada em cativar os numerosos adeptos, acalentava o mito. Alguns até ousavam em dizer que os corinthianos eram mais numerosos que os flamenguistas. Uma curiosa teoria do “segundo time” era defendida por Roque Citadini: “a torcida do Corínthians é mais concentrada em São Paulo e estados vizinhos. Torcedores do Flamengo que moram em regiões distantes do Rio torcem para um time local e para o Flamengo”, disse, não exatamente com essas palavras. Como se o corinthiano do interior paulista não torcesse TAMBÉM pelo time da sua cidade.

A fidelidade da torcida pode ser contestada em números: lógico que com boa fase, a torcida enche o estádio, mas o que dizer do ano 2000, quando o penúltimo lugar na Copa João Havelange veio acompanhado do 12° lugar na média de público? Me lembro bem da Libertadores de 2006, quando a torcida (bem verdade que era a gangue da Gaviões da Fiel) tentou invadir o campo na partida contra o River Plate, no Pacaembu. Será que eles queriam “empurrar” o time às margens do gramado?

Além do mais, torcida fiel mesmo é a do Santa Cruz, que conseguiu ano passado a melhor média de público entre todas as divisões do Campeonato Brasileiro, mesmo o time sendo eliminado na segunda fase da Série D. Um ano antes, torcedores iam ao Estádio do Arruda simplesmente para assistir o replantio do gramado e algumas obras de melhorias do estádio.

O rebaixamento corinthiano em 2007 pode ter ganho proporções grandiosas pela quantidade de torcedores, mas não doeu mais neles do que doeu no coração de qualquer torcedor que viu seu time ser rebaixado. No Brasil, existem doze clubes que, se rebaixados, causam barulho, e dão projeção à Série B.

E como seria encarada a épica “Batalha dos Aflitos”, se o adversário do Náutico fosse o Corínthians? Seria o maior caso de heroísmo da humanidade desde os 300 de Esparta...

Cada clube tem sua particularidade, sua especificidade, bem como seus bastidores políticos e sua torcida. Todos têm uma relação de vitórias sofridas, um rol de craques, jogadores apenas esforçados que adquiriram status de ídolos e feitos aumentados com o tempo, assim como vexames execráveis e uma sequência de cabeças-de-bagre que envergaram seus mantos. Isso sem contar as reclamações (infundadas ou não) contra os árbitros cegos ou corrompidos.

Talvez algum corinthiano cego de paixão (isso não é exclusividade de time nenhum) me inclua no grupo dos chamados antis, como se o mundo fosse bipolar, assim como era em tempos de Guerra Fria. Nessa visão grosseira, todas as outras torcidas, movidas pelo ódio e/ou pela inveja formam uma legião do mal contra os guerreiros de São Jorge. Ora essa, como se eles vissem com indiferença quando seus rivais, especialmente os três de São Paulo entrassem em campo. Imagino a torcida alvinegra indiferente à seus adversários jogado uma final...

O amor cega, independente do tamanho da torcida.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

LEGIÃO ESTRANGEIRA OU NATURALIZADA?



























A estratégia de naturalização em massa de atletas na Europa pode ser definida como atirar no que se vê e acertar naquilo que não se vê. A globalização do jogo e a afluência de talentos rumo ao Velho Continente fizeram com que praças antes secundárias vissem seus representantes saírem do posto de figurantes para serem figuras respeitáveis no futebol internacional.


A citada afluência levou para a Europa indivíduos de países antes pouco respeitados no cenário de seleções, posição alterada com o upgrade proporcionado pela convivência contínua com os melhores d mundo, fenômeno verificado principalmente no futebol africano, que até os anos 80, tinha fama de ingênuo e irresponsável taticamente. A ida em massa de seus principais valores ainda jovens para o exterior proporcionou o intercâmbio necessário para que seu talento se desenvolvesse e suas seleções adquirissem respeito mundial.

Algumas outras seleções se fortaleceram, especialmente no extremo Oriente, que fizeram o intercâmbio trazendo talentos de fora.

Se os clubes europeus se fortaleceram, o mesmo não pode se dizer de suas seleções. E diante dessa perspectiva de enfraquecimento provocada pela perda de "reserva de mercado", acelerada pela diminuição de barreiras para estrangeiros, especialmente após a chamada Lei Bosman. Os atletas embarcam na estratégia para buscar uma chance que não teriam nos concorridos selecionados de seus países (caso de brasileiros e argentinos, por exemplo), ou para terem chance em um selecionado de mais prestígio (caso de africanos).

Saindo dos gramados e indo para as quadras de futsal, a Itália mostrou um caso berrante: dos quatorze atletas inscritos no Mundial de 2008, doze eram nascidos no Brasil, e mais tarde, se aproveitaram de brechas legais para atuarem na Azzurra. Trata-se de um caso extremo, que teme-se transformar em regra. Esse "Brasil B" enfrentou nas semifinais o "Brasil A", e perdendo. Espanha e Rússia, que também contavam com brasileiros eram os outros semifinalistas.

Retornando aos gramados, contribui para essa transferência, conforme afirmado anteriormente, a excessiva concorrência dentro de alguns selecionados, onde a disputa ferrenha é capaz de renegar ao esquecimento figuras cobiçadas em diversos países. Caso do brasileiro Deco, naturalizado português para que em um primeiro momento, e como ele próprio reconheceu, dificilmente chegaria à seleção brasileira.

Naturalizado em 2002, foi convocado para defender os Tugas no ano seguinte por seu compatriota, Luiz Felipe Scolari. sob chuvas de protestos da imprensa, jogadores (inclusive da seleção) e treinadores, estes enciumados por perderem a chance de comandar a equipe nacional para um estrangeiro, a quem acusava de não conhecer os meandros do futebol local. Embora as críticas não contivessem racismo, fica clara a semelhança com o discurso de pureza nacional manchada por forasteiros, típico da extrema-direita.

Esse recurso, outrora esporádico, acabou se multiplicando. Nos últimos anos, a seleção alemã apresentou na sua lista de atacantes os poloneses Klose e Podolski, o ganês Asamoah, o suíço Neuville, o brasileiro Kuranyi e os filhos de imigrantes Mario Gomez e Odonkor, embora a maioria deles já residisse no país ainda na infância ou adolescência. Os germânicos, desde a geração campeã mundial em 1990, enfrentam uma crise de reposição de talentos, e diante disso, ampliar o leque de opções se faz necessário, mesmo na Alemanha, país cujas feridas do nazismo não cicatrizaram.

Como a globalização não é exatamente um processo de mão única, a migração ocorre também em um sentido inverso ao descrito: durante os períodos coloniais, assim como era comum os colonizados irem para as metrópoles em busca de oportunidades, o inverso também ocorria.

Ora, se no mundo do futebol, países ricos se aproveitam de sua superioridade econômica para acelerar o afluxo de estrangeiros e reforçarem seus selecionados, países periféricos também se utilizam do mesmo estratagema: nos anos 90, o técnico brasileiro Renê Simões, ao assumir o selecionado jamaicano, foi até a Inglaterra garimpar jogadores que por ascendência ou casamentos, pudessem atuar pelos Reggaes Boyz, e conseguissem uma classificação inédita para a Copa do Mundo, em 1998

Para encerrar, mais dois exemplos: na Copa da Alemanha, Togo tinha em seu time sete atletas nascidos além de suas fronteiras; o meia Cris Birchall, colocou os pés pela primeira vez em Trinidad e Tobago, terra de seus pais, para atuar no selecionado local.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

FUTEBOL ACADÊMICO

















Estudando o futebol como parte do meio social em que está inserido, é possível fazer uma analogia entre sua regulamentação e a regulamentação do convívio social mais amplo. Há um conjunto de regras escritas e um código de condutas não-escrito que que estabelecem as relações entre participantes e entre quem assiste. Como diz Johan Huizinga:




"(...) esta sistematização e regulamentação cada vez maior do esporte implica a perda de uma parte das características lúdicas mais puras. Isto se manifesta nitidamente na distinção oficial entre amadores e profissionais (que implica na separação entre aqueles para quem o jogo não é o jogo dos outros, por sua vez, são considerados superiores, apesar da sua competência inferior. O espírito do profissional não é mais o espírito lúdico, pois lhe falta espontaneidade, a despreocupação."

Os conceitos de liberalismo e de liberdade política, a partir dos ideais iluministas do século XVIII, foi reinterpretado segundo cada realidade: para cada caso específico, um arcabouço legal é criado ou modificado, quer seja para proteger, quer seja para punir, ou mesmo os dois. Diversas vezes, a liberdade foi justificativa da repressão, como é comum nos regimes autoritários, por mais contraditório que isso possa parecer. Cada grupo, ou mesmo cada pessoa vê a liberdade segundo seu próprio ponto de vista, de acordo com suas próprias experiências. E mesmo se pondo no lugar do outro, não é fácil justificar suas opiniões.

As transformações nas regras e na prática do jogo percorreram caminhos semelhantes à regulamentação social, especialmente no mundo capitalista, em especial se for considerada a intervenção estatal. Sempre que se burla ou se age pelas brechas das regras, se faz necessária alguma atitude que proteja a dignidade e o mínimo de de concorrência saudável, e mesmo quando não há desvio de conduta, novas regulamentações surgem para fazer da disputa mais dinâmica e leal.

Para ilustrar o exposto, basta lembrar recentes mudanças nas regras do futebol (limitação do recuo para o goleiro, ampliação do número de substituições, simplificação do impedimento, entre outras), comparando-as com regras econômicas (intervenção ou retirada do Estado da economia, limitação de monopólios e carteis, alterações na legislação trabalhista), todas para adaptar a conduta de quem joga com a lisura do jogo.O jogo é atemporal e universal, mas como a sociedade, não escapa das regulamentações específicas de cada período. A lei de um período pode até alcançar todas as pessoas de um dado período, mas dificilmente ela perpassa incólume por vários períodos, e mesmo quando elas são necessárias para o benefício coletivo, há sempre quem se sinta atingido e a rejeite. As mudanças citadas demonstram isso.

E tal como um reflexo social, a disputa incorpora novos rituais e visões de mundo de cada um praticante ou espectador assim que o tempo avança. O futebol se expandiu consideravelmente pelos cinco continentes, mas não de forma simultânea e homogênea: a frase "se joga como se vive", muito comum na Argentina, cai bem, com o cuidado de não se cair em estereótipos: a proletarização do jogo na Inglaterra ocorreu em um período de obtenção de avanços na legislação social; a popularização no Brasil e na Argentina se deu em um momento de discussão sobre a formação de uma identidade nacional, um conjunto de símbolos e valores que representasse o país perante o chamado mundo civilizado, abraçando ou não grupos historicamente excluídos (índios e negros) ou recém-chegados imigrantes; a expansão futebolística na China é contemporânea à abertura de sua economia ao mercado mundial, contraditoriamente ao mesmo tempo em que o regime fechado politicamente permanecia quase imutável.

E uma análise coerente não poderia mesmo supor que a expansão fosse homogênea, tamanha a distância de lugares e de tempo. Mesmo essa simplificação não é válida, pois dentro desses períodos houve resistência.

E também nessa linha de pensamento, a prática do jogo se adapta à realidade de onde ele penetra. Tal como um currículo escolar, que tem um conteúdo comum geral, mas que reserva espaço para especificidades de cada realidade, e por mais que se tente, uma interpretação homogênea é improvável. As idéias de cada sociedade acerca de violência, religião, identidade coletiva e hierarquia social, entre outros se manifestam em quem joga e quem assiste.

Códigos de conduta informais nem sempre são alcançados por regulamentações de entidades formalmente estabelecidas, até porque, salvo em alguns regimes de exceção, a sociedade molda o Estado, e não o contrário. Como afirmado anteriormente, as leis são elaboradas segundo o pensamento de cada época daqueles que legislam, mas são interpretados ou burlados conforme as necessidade.

Franklin Foer, jornalista estadunidense que reuniu seus relatos de viagem no livro "Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização" escreve, ora perplexo, ora admirado sobre a relação entre futebol, política, imigração e fé na rivalidade entre o Glasgow Rangers e o Glasgow Celtic, na Escócia; sobre a visão político-social de um torcedor ao estilo hooligan na Inglaterra; sobre a estrutura política quase feudal do futebol brasileiro, e do uso do futebol como bastião nacionalista na antiga Iugoslávia, entre outros.

Mais intrigante ainda, quando se trata do relato de um indivíduo proveniente de um país onde o futebol que o mundo conhece se chama soccer, e é tido como jogo de mulheres (por sua pouca virilidade, segundo os padrões locais), ou quando muito, de imigrantes. Foer é praticante do esporte desde criança, e por vezes deixa transparecer que está ilhado em sua própria casa. Seus escritos se assemelham a um diário de um desbravador que tenta conciliar a sua opinião com a visão das pessoas com quem se encontra na viagem. Apesar de jornalista, lida com um dilema típico do pesquisador: até que ponto não se deixar influenciar pelas fontes, ainda mais com um contato tão direto e impactante.

Está aí um relação interessante: por serem relativamente conhecidos do grande público, o que sem dúvida ajuda na divulgação, jornalistas se arriscam em escrever sobre as mais diversas áreas de conhecimento, o que gera protestos em setores acadêmicos, por um lado enciumados por serem relegados à um plano inferior quando deveriam protagonizar; e por outro, por verem suas áreas serem ocupadas por quem não tem o instrumental teórico e a metodologia de trabalho necessária para desenvolve o tema.

Sobre isso, não se deve tomar opiniões extremadas, é preciso conhecer os reais objetivos de quem escreve. Se um jurista escreve uma obra sobre o passado, não significa exatamente que ele invada o campo de atuação de um historiador, a menos que ele se proponha a fazer isso. Dentro da imprensa esportiva, há o caso oposto de ex-jogadores ocupando o posto de comentaristas, antes quase reservados à jornalistas de carreira.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

VENCER E MORRER



A história do futebol mundial inclui milhares de episódios emocionantes e comovedores, mas seguramente nenhum seja tão terrível como o protagonizado pelos jogadores do Dinamo de Kiev nos anos 40. Os jogadores jogaram um partida sabendo que se ganhassem seriam assassinados e, no entanto, decidiram ganhar. Na morte deram uma lição de coragem, de vida e honra, que não encontra, por seu dramatismo, outro caso similar no mundo.


Para compreender sua decisão, é necessário conhecer como chegaram a jogar aquela decisiva partida, e por que um simples encontro de futebol apresentou para eles o momento crucial de suas vidas.

Tudo começou em 19 de setembro de 1941, quando a cidade de Kiev (capital ucraniana) foi ocupada pelo exército nazista, e os homens de Hitler aplicaram um regime de castigo impiedoso e arrasaram com tudo. A cidade converteu-se num inferno controlado pelos nazistas, e durante os meses seguintes chegaram centenas de prisioneiros de guerra, que não tinham permissão para trabalhar nem viver nas casas, assim todos vagavam pelas ruas na mais absoluta indigência. Entre aqueles soldados doentes e desnutridos, estava Nikolai Trusevich, que tinha sido goleiro do Dinamo.

Josef Kordik, um padeiro alemão a quem os nazistas não perseguiam, precisamente por sua origem, era torcedor fanático do Dinamo. Num dia caminhava pela rua quando, surpreso, olhou um mendigo e de imediato se deu conta de que era seu ídolo: o gigante Trusevich.

Ainda que fosse ilegal, mediante artimanhas, o comerciante alemão enganou aos nazistas e contratou o goleiro para que trabalhasse em sua padaria. Sua ânsia por ajudá-lo foi valorizado pelo goleiro, que agradecia a possibilidade de se alimentar e dormir debaixo de um teto. Ao mesmo tempo, Kordik emocionava-se por ter feito amizade com a estrela de sua equipe.

Na convivência, as conversas sempre giravam em torno do futebol e do Dinamo, até que o padeiro teve uma idéia genial: encomendou a Trusevich que em lugar de trabalhar como ele, amassando pães, se dedicasse a buscar o resto de seus colegas. Não só continuaria lhe pagando, senão que juntos podiam salvar os outros jogadores.

O arqueiro percorreu o que restara da cidade devastada dia e noite, e entre feridos e mendigos foi descobrindo, um a um, a seus amigos do Dinamo. Kordik deu trabalho a todos, se esforçando para que ninguém descobrisse a manobra. Trusevich encontrou também alguns rivais do campeonato russo, três jogadores da Lokomotiv, e também os resgatou. Em poucas semanas, a padaria escondia entre seus empregados uma equipe completa.

Reunidos pelo padeiro, os jogadores não demoraram em dar o seguinte passo, e decidiram, alentados por seu protetor, voltar a jogar. Era, além de escapar dos nazistas, a única que bem sabiam fazer. Muitos tinham perdido suas famílias nas mãos do exército de Hitler, e o futebol era a última sombra mantida de suas vidas anteriores.

Como o Dinamo estava enclausurado e proibido, deram um novo nome para aquela equipe. Assim nasceu o FC Start, que através de contatos alemães começou a desafiar a equipes de soldados inimigos e seleções formadas no III Reich.

Em sete de junho de 1942, jogaram sua primeira partida. Apesar de estarem famintos e cansados por terem trabalhado toda a noite, venceram por 7 a 2. Seu seguinte rival foi a equipe de uma guarnição húngara, ganharam de 6 a 2. Depois meteram 11 gols numa equipa romena. A coisa ficou séria quando em 17 de julho enfrentaram uma equipe do exército alemão e golearam por 6 a 2. Muitos nazistas começaram a ficar chateados pela crescente fama do grupo de empregados da padaria e buscaram uma equipe melhor para ganhar deles. Trouxeram da Hungria o MSG com a missão de derrotá-los, mas o FC Start goleou mais uma vez por 5 a 1, e mais tarde, ganhou de 3 a 2 na revanche.

Em seis de agosto, convencidos de sua superioridade, os alemães prepararam uma equipe com membros da Luftwaffe, o Flakelf, que era uma grande time, utilizado como instrumento de propaganda de Hitler. Os nazistas tinham resolvido buscar o melhor rival possível para acabar com o FC Start, que já gozava de enorme popularidade entre o sofrido povo refém dos nazistas. A surpresa foi grande, porque apesar da violência e falta de esportividade dos alemães, o Start venceu por 5 a 1.

Depois dessa escandalosa queda do time de Hitler, os alemães descobriram a manobra do padeiro. Assim, de Berlim chegou uma ordem de acabar com todos eles, inclusive com o padeiro, mas os hierarcas nazistas locais não se contentaram com isso. Não queriam que a última imagem dos russos fosse uma vitória, porque acreditavam que se fossem simplesmente assassinados não fariam nada mais que perpetuar a derrota alemã.

A superioridade da raça ariana, em particular no esporte, era uma obsessão para Hitler e os altos comandos. Por essa razão, antes de fuzilá-los, queriam derrotar o time em um jogo.

Com um clima tremendo de pressão e ameaças por todas as partes, anunciou-se a revanche para 9 de agosto, no repleto estádio Zenit. Antes do jogo, um oficial da SS entrou no vestiário e disse em russo:

- "Vou ser o juiz do jogo, respeitem as regras e saúdem com o braço levantado", exigindo que eles fizessem a saudação nazista.

Já no campo, os jogadores do Start (camisa vermelha e calção branco) levantaram o braço, mas no momento da saudação, levaram a mão ao peito e no lugar de dizer: - "Heil Hitler!", gritaram - "Fizculthura!", uma expressão soviética que proclamava a cultura física.

Os alemães (camisa branca e calção negro) marcaram o primeiro gol, mas o Start chegou ao intervalo do segundo tempo ganhando por 2 a 1. 8 jan (3 dias atrás) Matheus Tavares

Receberam novas visitas ao vestiário, desta vez com armas e advertências claras e concretas:

- "Se vocês ganharem, não sai ninguém vivo". Ameaçou um outro oficial da SS. Os jogadores ficaram com muito medo e até propuseram-se a não voltar para o segundo tempo. Mas pensaram em suas famílias, nos crimes que foram cometidos, na gente sofrida que nas arquibancadas gritava desesperadamente por eles e decidiram, sim, jogar.

Deram um verdadeiro baile nos nazistas. E no final da partida, quando ganhavam por 5 a 3, o atacante Klimenko ficou cara a cara com o arqueiro alemão. Deu lhe um drible deixando o coitado estatelado no chão e ao ficar em frente a trave, quando todos esperavam o gol, deu meia volta e chutou a bola para o centro do campo. Foi um gesto de desprezo, de deboche, de superioridade total. O estádio veio abaixo.

Como toda Kiev poderia a vir falar da façanha, os nazistas deixaram que saíssem do campo como se nada tivesse ocorrido. Inclusive o Start jogou dias depois e goleou o Rukh por 8 a 0. Mas o final já estava traçado: depois dessa última partida, a Gestapo visitou a padaria.

O primeiro a morrer torturado em frente a todos os outros foi Kordik, o padeiro. Os demais presos foram enviados para os campos de concentração de Siretz. Ali mataram brutalmente a Kuzmenko, Klimenko e o arqueiro Trusevich, que morreu vestido com a camiseta do FC Start. Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, foram os únicos que sobreviveram, escondidos, até a libertação de Kiev em novembro de 1943. O resto da equipe foi torturada até a morte.

Ainda hoje, os possuidores de entradas daquela partida têm direito a um assento gratuito no estádio do Dinamo de Kiev. Nas escadarias do clube, custodiado em forma permanente, conserva-se atualmente um monumento que saúda e recorda àqueles heróis do FC Start, os indomáveis prisioneiros de guerra do Exército Vermelho aos quais ninguém pôde derrotar durante uma dezena de históricas partidas, entre 1941 e 1942.
Foram todos mortos entre torturas e fuzilamentos, mas há uma lembrança, uma fotografia que, para os torcedores do Dinamo, vale mais que todas as jóias em conjunto do Kremlin. Ali figuram os nomes dos jogadores.

Na Ucrânia, os jogadores do FC Start hoje são heróis da pátria e seu exemplo de coragem é ensinado nos colégios. No estádio Zenit uma placa diz "Aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazista".

Esta é a história da dramática "Partida da Morte". O cineasta John Huston inspirou-se neste fato real para rodar seu filme "Fuga para a vitória" (Escape to Victory) de 1982 que chamou muita atenção à época do lançamento porque dele participaram grandes nomes do cinema como Michael Caine, Sylvester Stallone e Max Von Sydow, mas muito mais pela participação de algumas estrelas do futebol, como Bobby Moore, Osvaldo Ardiles, Kazimierz Deyna e Pelé. No filme John Huston fez o que não pôde o destino: salvar os heróis.

Pra quem gostou da história recomendo que leiam "Futebol e Guerra". Nesse livro é contado, com detalhes, tudo o que aconteceu desde a época do Dínamo, início da guerra, fim da guerra e o que aconteceu com os jogadores.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

¿ DONDE ESTÁN LOS NEGRITOS?



Peguei o assunto do futebol só como gancho. É que uma coisa sempre vinha me deixando intrigado: nunca vi um negro atuando em qualquer seleção esportiva argentina, seja em Copa do Mundo, Jogos Pan-Americanos ou Olimpíadas. O que aconteceu com os negros do vizinho portenho?

Houve escravidão em toda América Latina. A importação de negros chegou até esta parte do Hemisfério Sul. Basta ver atletas e artistas brasileiros, uruguaios, colombianos, equatorianos, venezuelanos, peruanos, etc. E na Argentina, o que houve?

Na Argentina não tem negros porque foram todos mortos há pouco mais de um século. Jorge Lanata é um dos mais importantes jornalistas argentinos, fundador do diário “Página/12” e autor de Argentinos (em espanhol, Editora Argentina), uma belíssima história de seu país em dois volumes, lançada em 2002. Nos livros, ele batiza os negros de los primeiros desaparecidos, referência aos mortos pela ditadura militar recente. E traz números: no censo de 1778, 30% da população tinha origem africana. A proporção se mantém no censo de 1810, cai para 25% em 1838. Em 1887, repentinamente, compõe menos de 2%.

Durante seu primeiro século de vida, a capital argentina sobreviveu às custas do comércio negreiro. No século 16 até a primeira metade do 17, a coroa espanhola drenava o ouro e a prata do Potosí, na atual Bolívia. Foi este o negócio que batizou o Rio da Prata – e foram principalmente mãos negras que tiraram das minas subterrâneas os metais que sustentaram a Europa. Os escravos que trabalharam no Potosí vinham principalmente de Angola. Eram negociados pelos peruleiros, que faziam a rota Potosí-Buenos Aires-Rio-Luanda.

Como no Brasil, todo o serviço, doméstico ou não, nos séculos 17 e 18 foi feito por mão-de-obra negra e escrava na Argentina. Então desapareceram e a história local ensinada nas escolas se cala sobre o assunto. Francisco Morrone, autor de Los negros en el ejército: declinación demográfica e disolución, é um dos historiadores que tenta recuperar o que houve. Segundo Morrone, uma das coisas que aconteceu foram casamentos mistos que, lentamente, clarearam a pele de filhos e netos. É o tipo da resposta que explica quase nada. Mas aí ele mete o dedo na ferida.

A abolição da escravatura na Argentina começou em 1813, foi confirmada pela Constituição de 1853 – bem antes à brasileira. Durante o século 19 todo, o país se meteu numa guerra após a outra. Contra invasões por parte de Inglaterra e França, então a Guerra da Independência seguida do banho de sangue da luta interna entre caudilhos pelo poder e culminando com a Guerra do Paraguai, na qual seguimos aliados. Por todo este período belicista, a Argentina pôs seus negros na linha de frente dos exércitos, os primeiros a levar tiros, às vezes de espingardas – muitas vezes servindo de isca para que o inimigo gastasse as balas de canhão.

O golpe final foi a grande epidemia de Febre Amarela em 1871, que se abateu sobre os bairros de Buenos Aires para onde os negros que sobraram foram transferidos. Depois, nos primeiros anos do século 20, assim como no Brasil, houve uma enorme migração européia, principalmente de italianos, que marcaram o sotaque portenho como marcaram cá o paulistano. A diferença é que, a essas alturas, os poucos mulatos não tiveram melanina suficiente para escurecer a pele da população restante.

A Argentina teve, sim, escravos, exatamente como o Brasil e na mesma proporção. Nos momentos seguintes à sua independência, aboliu a escravidão para pôr em marcha uma política de branqueamento da população. No caso, isso quer dizer genocídio. Diga-se de passagem, nos primeiros anos da República isto foi motivo de inveja por parte do governo brasileiro. Não há inocentes.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

FASCSITAS CONTRA COMUNISTAS EM CAMPO






O “Dérbi político” da velha bota leva ao estádio duas ideologias antagônicas e supostamente enterradas. Se for levado um reducionismo: de um lado, a extrema direita representada pela torcida do time da cidade eterna. Do outro, a extrema esquerda representada pelos torcedores da pequena cidade portuária da Toscana.

Os Irriducibili, os “ultras” da Lazio, exibem bandeiras negras com o rosto de Mussolini, símbolos nazi-fascistas (suásticas e cruzes celtas), gritam vorazmente: DUCE! DUCE!, Em 1998, os ultras chocaram toda a Europa ao exibir uma faixa anti-semita com a seguinte mensagem: “Auschwitz vossa pátria, os fornos vossas casas!”. Três anos mais tarde, no clássico contra a rival Roma, a torcida da Lazio cantou musicas racistas contra os jogadores negros da Roma, entre os quais alguns brasileiros.

Na curva oposta, os ultras do Livorno respondem cantando o hino da resistência italiana durante a Segunda Grande Guerra, a célebre Bella Ciao, o hino comunista italiano “Bandierra Rossa”, agitam bandeiras vermelhas estampadas com a foice e o martelo misturadas com algumas de Cuba e estandartes com imagem do “Che”.

Os Ultras também já tiveram seus respectivos representantes dentro do gramado. Paolo Di Canio, um ex Irreducibili, e Cristiano Lucarelli, fundador, em 1999, da torcida organizada BAL (Brigate Autonomi Livornesi), que para homenageá-la utilizava a camisa de número 99.

Lucarelli nasceu em Livorno, no dia 04 de Outubro de 1975. Começou a sua carreira no Perugia em 1993, mas conseguiu jogar no seu clube do coração em 2004, quando foi o artilheiro da temporada com 24 gols. Conquistou enorme popularidade por questões além do jogo. Lucarelli é comunista convicto. Comemora seus gols com o braço erguido e o punho fechado (gesto comunista). Rejeitou propostas milionárias de clubes maiores por causa de suas convicções.

Declarou que outros jogadores compram, com um bilhão de dólares, iates e Ferrari. Para ele, bastaria ter o suficiente para adquirir a camisa do Livorno. O discurso não impediu a transferência do ídolo, de 31 anos, em julho desse ano, para o Shakthar Doniesk por oito milhões de Euros. Lucarelli foi o primeiro italiano a atuar no campeonato da Ucrânia. O negócio causou polêmica na Serie A. Segundo o site uefa.com, a imprensa ucraniana sugeriu que seu contrato de três anos garantirá cerca de 13,5 milhões de Euros em sua conta bancária.

Do outro lado, o ex-atacante da Lazio nasceu no dia 09 de julho de 1968, no bairro pobre de Quarticciolo em Roma. Iniciou sua carreira na Lazio em 1985. Deixou o clube em 1990 e voltou para “casa” no intuito de pendurar as chuteiras na temporada de 2004 a 2005. Foi na última passagem pela sua equipe do coração que Di Canio polemizou, com seu look skinhead, ao declarar admiração pelo ditador fascista Benito Mussolini.

No jogo Livorno X Lazio, em 11 de dezembro de 2005, Di Canio, ao ser substituído, dirigiu-se à sua torcida com a saudação fascista. O episódio gerou polêmica na Europa toda. A liga italiana de futebol puniu o jogador com apenas uma partida de suspensão e irrisórios 10.000 Euros, pagos pelo próprio Clube. No entanto, houve na Itália quem achasse isso banal, como o então primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi ao chamar Di Canio de “um bravo ragazzo” (bom rapaz) e a ex-parlamentar Alessandra Mussolini, neta do ditador, que elogiou a atitude do jogador.

Na época, Di Canio definiu sua punição como perseguição política, Afirmou que seu gesto não era racista, mas apenas uma saudação romana. Prometeu repeti-la. A promessa foi cumprida no dia 17 de dezembro, apenas uma semana após o fatídico episódio. O jogador estendeu o braço direito no final do jogo com a Juventus e foi novamente suspenso e multado.

Pena que o rebaixamento do Livorno nesta temporada impediu o confronto na próxima edição do Calcio.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O (NEM TÃO) JUDEU HOLANDÊS



Para quem vai passar fim de semana na Holanda, e visitar Amsterdam com todos seus pecados:
Além dos canais, moinhos, tulipas, tamancos, coffeeshops e a Heineken Pilsener, outras coisas merecem destaque por aquelas terras. Um delas são os inúmeros museus bizarros, como o “Museu do Sexo” ou o “Museu da Tortura”, este último, uma verdadeira enciclopédia ambulante de toda maldade humana até então produzida na História. Uma dica, quando sair é bom tomar um bom banho de sal grosso, porque o lugar é carregado até os infernos.

Como o assunto aqui é Futebol não pude deixar de acompanhar a partida entre o Ajax e Sparta Rotterdam no domingo. Não se pode deixar de notar a quantidade de referência Judias na Torcida do Ajax. A Estrela de Davi ou a bandeira de Israel estava em todos os cantos do estádio, em bandeiras, cachecóis, tatuagens e milhares de Torcedores gritando "Joden, Joden" (Judeu em Holandês) a toda hora. E para completar essa salada toda, do outro lado os torcedores do Sparta Rotterdam gritavam “Hamas, Hamas” em referência ao grupo palestino ... ou seja a banquete estava todo armado...

Apesar de Amsterdam deter a maior comunidade Judaica da Holanda, isso não se reflete na demografia da torcida ou direção do Ajax. A grande maioria das pessoas nas arquibancadas não tem nenhuma origem judaica e não existe nem judeu na direção do clube. Todas essas referências Judias foram apenas adotadas pela torcida nos anos 70, porque os rivais xingavam qualquer torcedor de Amsterdam de “Joden”. Uma criação dos Rivais e assimilado gradualmente pelos torcedores do Ajax.

O problema é que hoje o Ajax ganhou todas as regalias da Indústria do Holocausto, mesmo sem ter nem Judeu presente. Isso tudo faz apenas parte do imaginário da Torcida. O próprio presidente do clube, John C. Jaakke, já declarou “O clube não tem nenhuma origem Judaica”.

Sionismo significa ligação - seja espiritual ou física - com a terra de Sião, nome dado outrora à terra que foi o Reino de Israel e Reino da Judéia. Sionismo não significa imperialismo como é utilizado erroneamente pela esquerda em sua pressa intelectual de decodificar a realidade com dualismos conceituais maquineístas. O Estado de Israel, entretanto, tem forte influência política da esquerda (não só na questão batida dos kibutz) como na própria constituição da cidadania para todo judeu e questões como cidadãos árabes-israelenses.

O que é pouco visto é a constituição dessa ligação dos judeus com Israel. Qual seria a legitimidade dos australianos em reivindicarem a terra onde vivem? E dos estadunidenses? Creio ser infinitamente inferior à relação que o povo judeu tem com sua terra cujos indícios históricos babilônicos asseguram ser de pelo menos 2.000 a.c.

Os palestinos não tem origem étnica no povo que conviveu com as tribos hebréias - filisteus - e se chamam palestinos somente pela origem da palavra latina para o lugar onde viviam os filisteus - atualmente faixa de Gaza - ser chamada de Philisteia. É óbvio que há um tabu na Alemanha, porque demora algum tempo para as pessoas "digerirem" certas questões, como por exemplo a questão das bandeiras da Alemanha empunhadas com orgulho na última Copa. Antes, havia um certo tabu nesse sentido.

Quem toma "sionismo" como sinônimo de racismo ou imperialismo, faz uma acepção errada que não comporta as dezenas de correntes sionistas de direita e de esquerda que lutaram como partisans, na Armia polonesa, como Tommys ingleses e mesmo assim se sentiam ligados à sua terra de Israel.

domingo, 29 de agosto de 2010

SOMOS RIVAIS ATÉ QUE PONTO?



A primeira, e mais tentadora resposta, reside na tão decantada rivalidade esportiva entre ambos os países, potências mundiais nos gramados. O lado ufanista e de certo ponto irresponsável da imprensa solta fanfarronices do tipo: “ganhar é bom, ganhar deles é melhor ainda” ou “nós torcemos contra eles, pois eles torcem contra nós”, são lidas e ouvidas com frequência, ditas por quem está mais interessado em apimentar um duelo que lhes garantem leitores e audiência do que propriamente expressar opinião sincera ou garantir fidelidade aos fatos.

O torcedor, de certa maneira, é tentado ao ver seus valores atingidos: atitudes provocativas, ou manipuladas de modo a parecerem, são usadas para mexer com o orgulho coletivo. O efeito disso é a troca de farpas sem que se saiba a origem. Para torcedores comuns, a primeira provocação sempre partiu do outro lado.

Recorrendo novamente a Hobbsbawn, não é ousadia afirmar que a inimizade esportiva entre os países, se levada para fora do esporte, se torna uma invenção tacanha. Os dois países não tem litígios bélicos desde meados do século XIX, e no campo diplomático, as discussões se resumem a questões econômicas e de liderança política continental, salvo alguns momentos específicos, principalmente durante períodos de exceção.

Grandes times e seleções nacionais constroem suas histórias, ou pelo menos boa parte delas, às custas de grande oponentes. “A grandeza do Inter se deve à grandeza do Grêmio”, disse certa vez, nos anos 60, um dirigente esportivo, sobre os dois grandes clubes de Porto Alegre. O mesmo vale o caso argentino, onde as rivalidades, onde as rivalidades se organizam em pares, de acordo com cidades ou regiões. O time mais próximo é prioritariamente o seu maior rival, a menos que ele não seja forte o suficiente para lhe fazer frente.

Os duelos entre River Plate e Boca Juniors são conhecidos como “super-clássicos”, e vitórias são tão importantes para suas torcidas quanto conquistas de campeonatos. Eurico Miranda, notório falastrão e ex-presidente do Vasco da Gama, afirmava que para seu time existiam dois campeonatos dentro de um só, aquele propriamente dito, e um paralelo, disputado contra o Flamengo.

Na lógica do torcedor, tão importante quanto ver o seu time ganhar, é ver o seu rival perder. Se os dois fatos forem simultâneos, melhor ainda. E assim como normalmente ocorre na política, é preciso demonizar o rival, atribuindo-lhe características que não são suas, ou potencializando as que já existem. Nos tempos de Guerra Fria, americanos e soviéticos utilizaram suas máquinas de propaganda para mostrar a sua superioridade e os defeitos do regime oponente.

Para o torcedor comum, assim como era para os estrategistas políticos, é muito importante demonstrar que não somente os seus valores esportivos são superiores, mas também os seus valores morais. Para tanto, se for preciso, se eleva conquistas esportivas ao caráter épico, transforma-se simples jogadores em guerreiros da mais alta estirpe, e por vezes, reduz as vitórias dos rivais a um mero acaso, ou fruto de uma manobra de bastidores ou manipulação de arbitragem.

No entanto, assim como na política, o inimigo pode ser um aliado circunstancial em um dado momento: na Copa de 1954, quandro brasileiros e uruguaios foram eliminados pelos húngaros, e doze anos depois, quando os argentinos foram eliminados pelos ingleses, a imprensa sul-americana adotou um discurso regionalista, afirmando existindo um complô comunista (em 1954) ou europeu (em 1966), para deter uma suposta superioridade de seleções da América do Sul. Nesse último jogo, o argentino Ratín dizia que era preciso mostrar “que na América também tem homem”.

Dentro da estratégia desmerecimento, passa, conforme descrito no parágrafo anterior, a ação de lhe estereotipar comicamente, e se isso provocar a ira de quem é “homenageado”; e quanto maior a ira, mais consolidado esse gracejo fica. As mútuas referências como “gallinas” e “bosteros”, com as quais torcedores de River Plate e Boca Juniors são jocosamente identificados, já se incorporaram a sua imagem perante os adversários em geral. Por outro lado, o apelido de “Porco”, dado ao Palmeiras, se não desapareceu como todo, perdeu um pouco de sua razão de ser, quando seus torcedores assumiram a provocação e incorporaram o mascote de tal maneira, a ponto de substituir o Periquito, mascote oficial. Além de inferiorizar moralmente o inimigo, provocações do tipo servem para irritá-lo, e o desprezo por vezes, atenua os efeitos da provocação.

Mas, paradoxalmente, a provocação carrega algo de admiração dentro de si: por mais que os ranhetas neguem, nenhum grupo de torcedores elege como seu maior rival um time muito inferior ao seu. As maiores rivalidades do mundo são entre clubes historicamente nivelados. Conforme observa Franco Júnior, e descrito anteriormente, há uma predominância de duelos citadinos, ou de localidades próximas, como se fosse um duelo pelo controle de um território. É como se a tristeza fosse mais dolorosa se ela fosse atrelada a alegria de um inimigo próximo.

Caso não haja um rival próximo à sua altura, busca-se um além de suas terras. Na Itália, a queda de rendimento do Torino, a partir da metade do século passado, transformou Milan e Inter nos grandes adversários da Juventus; e na Espanha, Real Madrid e Barcelona se tornaram os grandes rivais nacionais, na medida em que seus principais concorrentes citadinos, Atlético de Madrid e Espanyol, não conseguem acompanhar seu ritmo, principalmente o primeiro, que experimentou uma queda desde os anos 80. Vale ressaltar que a identificação dos clubes com o franquismo, o Madrid como preferido do Generalíssimo, e o Barcelona como reduto de protesto ao regime.
Derrotar um rival ou vê-lo derrotado não faz sentido sem que se veja a dor alheia.

No Brasil, há quem prefira os Campeonatos Estaduais ao Campeonato Nacional, pela maior quantidade de confrontos locais, mesmo que a qualidade do torneio seja inferior. Na Argentina, há uma série de confrontos locais (Buenos Aires, Avellaneda, Rosario, La Plata, Mar del Plata), onde a vitória sobre o inimigo íntimo ou um fracasso retumbante seu é tão comemorado como se fosse um grande feito de sua equipe. Nesse ponto, mais uma explicação de como o adversário pode se tornar um aliado pontual: quando por exemplo, Corínthians e River Plate se enfrentaram pela Taça Libertadores em 2003 e 2006, não era mesmo de se esperar que torcedores de Palmeiras e São Paulo engrossassem a torcida do Corínthians.

A derrota da equipe brasileira nos dois confrontos só reforçou os gracejos sobre o fato de o clube, ao contrário de seus rivais, nunca terem vencido o torneio E é nesse caso.
E é nesse caso (a rivalidade acentuada pela proximidade) que argentinos e brasileiros se enquadram. O bom desempenho de ambos em competições continentais e mundiais desde o seu início, somado às conquistas de seus clubes já eram por si só, motivo para a atenção, mas o protagonismo foi ainda mais acentuado com a queda de rendimento da seleção e dos clubes do Uruguai (historicamente a terceira grande força sul-americana), no último quarto do século XX.

E como a rivalidade é intrinsecamente ligada à qualidade, esta por sua vez pode vir acompanhada de admiração, conforme já tratado. Na mentalidade do torcedor, o mau momento de seu time dói ainda mais quando o seu antagonista vai muito bem, e por maior que seja o desgosto, ele se torna exemplo a ser seguido, e batido mais tarde. É como uma espécie de orgulho narcisista que implica certa comparação entre si mesmo e o outro.

Estruturalmente, o ‘narcisismo de pequenas diferenças’ é construído ao longo do tempo conforme a trajetória esportiva dos times e o comportamento de suas torcidas. Mas ele se manifesta de acordo com a conjuntura do jogo. Estudo da Universidade de Indiana encabelado por Edward Hitt mostrou que, estimulada pelo jogo, a bioquímica cerebral substâncias que leva o torcedor a refletir o desempenho de sua equipe (...)

Na partida contra a Argentina, boa parte da torcida cantou com a melodia de ‘Não chores por mim, Argentina’, uma questão que mostra a desqualificação do outro (...) ‘Nós entendemos/ Vocês estão se borrando de medo/ O cheiro chega até Berlim (...)’”

Porém, admiração e simpatia não são exatamente sinônimos, e apontar o outro como exemplo pontual a ser seguido não contradiz com o desejo de que esse exemplo não se concretiza. É isso que legitima a afirmação: “gosto da maneira como joga como jogam, mas torço para que percam.”

Em todos os casos expostos, criou-se uma lista de batalhas épicas, heróis, vilões, estratégias surpreendentes, complôs, mas acima de tudo, uma ligação entre as partes que ganha contornos cada vez mais especiais com o passar do tempo, mesmo que para isso, se exagere nos fatos ou omita passagens não muito edificantes. Os relatos orais são boa alternativa de pesquisa, mas ao escapar da documentação escrita, acaba por perder o controle de sua veracidade, por vezes.

E como o consumidor desse tipo de notícia é geralmente passional (o chamado pós-torcedor ainda é minoria), manchetes apelativas atraem ainda mais as atenções, especialmente a partir dos anos 90, quando publicações como os diários Olé e Lance surgiram e ganharam considerável espaço, com manchetes simples, capas com frases curtas e impactantes, que têm a intenção de atrair leitores que enxergam na publicação o que realmente sentem, seja no sentido da motivação, da decepção ou simples gozação.

Por mais que hajam justas críticas, esse tipo de publicação se torna referência até para outros órgãos de imprensa: quando no Brasil, se quer ressaltar aspectos negativos da imprensa vizinha, ou simplesmente se queira saber o que pensa a crônica esportiva de lá, as reportagens do Olé são as preferidas, e mostradas de modo a parecer que representam a opinião de toda a imprensa e torcida. É algo como se alguém dissesse: “eles pensam isso”, uma estratégia para se vitimizar e vilanizar o adversário. Por outro lado, quando se observa algum elogio aos brasileiros do lado argentino, isso soa como rendição diante do evidente talento. Na imprensa argentina, a vitoriosa passagem do atacante Carlos Tevez pelo Corínthians era celebrada como a conquista de um território.

Na imprensa brasileira, especialmente caso haja a análise de publicações como o Lance, que manchetes provocativas em direção ao rival também são comuns. No Mundial de 2002, a precoce eliminação argentina no torneio era celebrada com a manchete: “Não chores por mim, Argentina”, ofuscando até mesmo o confronto brasileiro contra os costarriquenhos naquele dia.

Se as relações entre os dois países forem analisadas apenas sob o ponto de vista do lado sensacionalista de suas imprensas esportivas, certamente se imaginará um mútuo ódio sarcástico. Mas, como se verá adiante, a História do esporte e as respectivas visões dele, trarão mais semelhanças do que diferenças em seus respectivos processos de desenvolvimento, e um tem muito ainda a saber sobre o outro, como descreve Alejandro Grimson:

Quando os argentinos viajam ao Brasil, quebram o estereótipo de país do carvanal; vêem a produção e a modernidade brasileira. Quando os brasileiros viajam à Argentina – a Buenos Aires, à Patagônia – se surpreendem com o uso do espaço público, com a menor violência e desigualdade social. Os argentinos são muito mais cordiais do que imaginam os brasileiros; menos soberbos do que indica o estereótipo. (...) São países que se deram as costas durante muito tempo e têm muito a aprender um do outro. Para conseguir isso, a idéia de “hermanos” não é boa. É melhor reconhecer que temos estereótipos, preconceitos e ignorância. Assim podemos mudar. “

Ao que parece, essa imagem de rival contaminou não só o torcedor comum, mas também o cidadão comum.

Inicialmente trazido para ser uma diversão interna das elites, a disseminação do futebol nas classes populares a fez reinterpretar os valores cavalheirescos até então presentes nas disputas, moldando-os à sua maneira e sua perspectiva, mais adequado ao seu modo de sobrevivência em seu meio.

Pablo Albarces vê na dinâmica do jogo, que permite a participação e a valorização de um talento interno e beneficiando um conjunto do qual faz parte o espelho de uma sociedade democrática e meritocrática.

“Esse processo, conforme descreve Archetti, recorre a caminhos distintos. Necessita de ritos de passagem: se a nacionalidade se constrói no futebol, há que se explicar o trânsito da invenção inglesa até a criolização (...) até que se faça eficaz a representação da nacionalidade, (...)frente a uma idéia de nação baseada em um panteão heróico das famílias patrícias e na tradição hispânica, o futebol fazia da nação representada por sujeitos populares (...) os heróis nacionais que os intelectuais orgânicos do futebol propuseram eram membros das clases populares relamente existentes, urabanizadas, alfabetizadas recentemente e que pressionavam (...) por instalar-se na esfera cultural e política."

Ainda de acordo com Albarces, o sentimento nacional passa pela igualdade, nem que seja imaginária, duas coisas a que gaúchos e nortistas ainda não tinham pleno acesso. E dentro do jogo, essa igualdade se liga à construção de um estilo próprio de jogo, como uma identidade esportiva nacional, algo tão manipulado quanto a identidade cívico-cultural.

No princípio combatido como pertubardor, esse estilo popular, também considerado rústico e corrompedor, barbarizado, antítese do fair play elitista na medida me que se expandia e se sobressaía ao conservador e importador e protegia seus times e selecionados além das fronteiras foi adotado como nacional e incorporado ao projeto de nação, mesmo com a regulamentação necessária.

Assim que forma criados e ganhavam corpo, os times ligados à setores populares enfrentavam o preconceito de seus pares mais abastados, para quem seus primos pobres deveriam se resignar ao papel secundário, tal como era a situação dos trabalhadores na sociedade. Os sucessos do Racing Club e do Vasco da Gama, nas temporadas de 1913 e 1923, respectivamente, sobre equipes mais tradicionais e adeptas do fair play, são marcos simbólicos para tanto.

O jogo se desinglesou, os valores sócio-esportivos eram interpretados por cada grupo que aderia ao jogo, e esse estilo chamava a atenção internacionalmente, especialmente com a criação da Copa do Mundo de Futebol, em 1930. Assim, passou a ser valorizado em momentos de sucesso e contestado em fracassos no plano interno, embora sempre admirado externamente, e ainda associado a imagem exterior da nação. Os fracassos da Argentina nas Eliminatórias para a Copa de 1970 (eliminada pelo Peru nas seletivas) e o brasileiro no Mundial de 1990 (eliminado na Segunda Fase, atuando bem abaixo do que poderia) repercutiram negativamente no plano interno, tanto que sugeria-se que o selecionado mudasse a sua postura, mas no plano externo, apenas a seleção era contestada, não o estilo em si.

A imprensa costuma se referir à Eurocopa, o torneio continental de seleções como “uma Copa do Mundo sem Brasil e Argentina”, em um evidente exagero, especialmente nas últimas décadas, quando equipes de outros continentes ganharam força perante os europeus, mas que dá às duas potências sul-americanas a exclusividade em fazer frente ao continente inventor do futebol moderno pela soberania.

Além dessa deferência, vem crescendo a arregimentação de atletas de outros países, inclusive argentinos e brasileiros, para suprir as suas carências futebolísticas. Na Copa de 2006, cinco jogadores brasileiros atuavam por outras seleções, e a tendência é de aumentar.

É exagerado, mas não é de todo equivocado.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A DITADURA DA BOLA



A FIFA se apresenta como uma entidade supranacional e apolítica, a guardiã do futebol, a quem apresenta como um fator de união entre povos, quase um instrumento de paz. A sua quantidade de membros, superior à das Nações Unidas, é o seu principal trunfo, além é claro, da popularidade em si que tem o futebol.

“Fair Play”, “No to Racism” e “For the Good of the Game” são alguns de seus lemas.
Antes de prosseguir, é bom afirmar que a FIFA tem entre seus filiados Estados não-independentes, coisa que a ONU não conta: enquanto Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte se reúnem perante a Comunidade Internacional sob a bandeira do Reino Unido, no mundo do futebol se apresentam separadamente.

Para reforçar a imagem de mensageira da paz, a entidade comandada por Josep Blatter, faz até caridade, com investimentos em países pobres, como o chamado Projeto Goal, através do qual foram construídos estádios e obras infra-estruturais em países com pouca expressão ou pouco dinheiro.

Por trás dessa capa de boazinha, está uma estrutura vertical, que pune severamente quem ousa discutir suas determinações fora de sua esfera, e é capaz de afastar das competições clubes que vão à Justiça Comum para fazer valer os seus direitos. Isso sem contar o afastamento de Federações que sofrem intervenções estatais, sob a justificativa de proteger seus filiados da intervenção maléfica de quem “ousa prejudicar a lisura do jogo”.

E é essa mesma entidade heróica que se alia a ditaduras retrógradas para reforçar o seu poder, como as retrógradas Monarquias do Oriente Médio, cujos petrodólares atiçam o tino comercial dos chefões do futebol.

Considerando-se acima de qualquer Estado, exige alterações no sistema legal de países onde ela realiza suas competições, especialmente a Copa do Mundo, que na última edição, em 2010, passou a ser chamada pelas emissoras com direitos de transmissão de Copa do Mundo FIFA.

A estrutura hierárquica da entidade resume as decisões do esporte mais popular do Planeta a um pequeno grupo; as decisões sobre as regras (sempre um ponto sensível) são tomadas em conjunto com a International Board, um órgão ainda mais jurássico que a própria FIFA. No máximo, as Federações Nacionais têm acesso às discussões. Os jogadores, principais atores do espetáculo são tratados como empregados , e qualquer tentativa de criação de um Sindicato, ou qualquer coisa semelhante, é tratada como um ato inadmissível. Os Sindicatos Nacionais que já são atuantes são tratados com desprezo.

Para justificar a não alteração das regras, Blatter apela para a “boa polêmica”, a discussão de mesa de bar, da roda de amigos, que estende o jogo para muito além do seu tempo de realização. A rejeição aos recursos eletrônicos para auxiliar a arbitragem tem até uma explicação parcialmente plausível: nem todos os organizadores têm condições de adotá-los, especialmente em competições sem tantos recursos. Só que essa mesma rejeição dá margem à erros de arbitragem grosseiros, cuja suspeição é frequentemente levantada. A profissionalização da arbitragem é protelada há décadas e a sua autonomia é tratada como uma ofensa.

A estrutura vertical da FIFA lembra de certa forma, o Parlamento Brasileiro, especialmente no que diz respeito aos chamados alto e baixo clero. E tal como o Legislativo do Brasil, os membros do baixo clero barganham o apoio em troca de benesses. E assim, o Mundial, que tinha 16 membros em 1978, dobrou de tamanho vinte anos depois. E já há quem defenda a inclusão de mais oito para o torneio de 2018.
Em 1966, diversas federações de África e Ásia exigiram, e não conseguiram a ampliação de suas vagas para a Copa que seria realizada na Inglaterra.

João Havelange soube muito bem manobrar dentre os descontentes para vencer Stanley Rous e tirá-lo do comando da entidade, oito anos depois. Também foram africanos e asiáticos, que aliados a europeus (que lançaram o presidente da UEFA, Lennart Johansson, como candidato à presidência da FIFA) quase impediram que Havelange fizesse de Blatter o seu sucessor. A eleição do suíço foi cercada de boatos acerca de acordos de bastidores, muitos dos quais espúrios.

Para agradar o chamado baixo clero e aliados de países sem condições de receber uma Copa do Mundo, os torneios secundários, como os Mundias Sub-17 e Sub-20, forma usados como moeda de troca. Um deles, o Sub-20 que seria realizada na Nigéria, em 1995, foi transferida para o Catar por problemas sanitários, o que gerou protestos de diversas federações africanas e um boicote do continente ao torneio. Esse foi um dos focos de rebelião que quase impedira a eleição de Blatter, três anos depois.

Ainda há a relação tensa com os clubes, quem realmente paga a conta. Por conta disso, a FIFA foi obrigada a fazer concessões, como a criação das Datas-FIFA, únicos períodos (fora as competições oficiais) onde os clubes são obrigados a liberarem seus atketas para os selecionados nacionais, embora apoie a UEFA em sua iniciativa de limitar a quantidade de estrangeiros, na contra-mão da globalização da mã-de-obra e até mesmo da legislação da União Europeia, que trouxe novas regras para a migração interna de seus trabalhadores. Só que a União Europeia não é exatamente um interlocutor fácil de ser manipulado, como os próprios clubes perceberam quando tentaram impedir a chamada Lei Bosman.

Até 1974, a FIFA funcionava basicamente sob os moldes da herança de Jules Rimet, uma entidade de pouca interferência em seus filiados e que se notabilizava muito mais por organizar as Copas do Mundo. Com Havelange, tornou-se um negócio de bilhões, uma empresa com poder político e econômico que poucas multinacionais têm. O dirigente posa de estadista, um missionário que expandiu o futebol pelo mundo, mas na verdade, foi um grande executivo, que eliminou ou cooptou a concorrência ao seu poder.

O futebol pode até ser um esporte democrático dentro das quatro linhas, mas em seu comando é hermeticamente fechado, e parece impossível de ser aberto.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

TODO PODEROSO É O CARAMBA



Futebol e mito são como queijo e goiabada: bons separados e melhor ainda quando unidos. Alguns são como um tempero de um prato muito bom, outros são bobagens desnecessárias que azedam qualquer prato, seja ele bom ou não.

Grandes torcidas são como grandes comunidades que carregam em seu seio histórias que justificam a devoção, e como tal, por vezes carregam exageros. Seguindo o pensamento de Goebbels, uma ou várias mentiras bem trabalhadas podem ser encaradas como verdades incontestáveis, e quanto maior o número de crentes nessa visão equivocada, mais a falsificação é aceita como verdade.

Esse é o caso de clubes com grande número de torcedores. Vou escrever sobre o Corínthians, mas com outros argumentos, poderia escrever sobre qualquer outro. O time do Parque São Jorge ganhou uma exposição de mídia impressionante ultimamente, e mais especialmente ainda após o retorno à Série A e a contratação de Ronaldo. Talvez por isso, se diga que o Corínthians é um clube diferente dos demais, ou melhor que todos, como os mais fanáticos gostam de afirmar.

Com isso, foram criados alguns mitos sobre o clube. Vamos descontruí-los:

1. “Todos os times têm torcida. A torcida do Corínthians tem um time”: ora essa, todo time vive em função de sua torcida. Pelo que eu saiba, o Corínthians foi fundado em 1910, quando o futebol ainda engatinhava no Brasil e ainda não tinha lá muitos simpatizantes.

2. “Corinthiano é fiel, não abandona o time nunca”: se fosse assim, o time sempre jogaria com estádios cheios, coisa que obviamente nem sempre acontece. Se isso fosse verdade, os jogadores sempre receberiam apoio das arquibancadas, e como todos sabem, não foram raros os casos em que a torcida execrou o time.

3. “Tudo o que acontece no Corínthians é potencializado”: aí está uma verdade, mas que tem explicação numérica, e não mítica. O Corínthians tem a maior torcida de um mercado rentável como é o mercado paulista, e imprensa quer vender jornal e/ou ter atenção. Então, por conseqüência, falar do Corínthians, seja bem ou mal é rentável. Se existir notícia, ela deve ser transformada em polêmica; e se não existir, inventa-se.

4. “O Corínthians é um time diferente de todos os outros”: mais uma verdade que é trabalhada para se tornar mito. Todos os clubes têm especificidades, seja ela em sua torcida e na sua política interna. A política corinthiana é tumultuada, mas a de maioria de todos os grandes clubes também são, a não ser que seja homogeneizada nas mãos de um ditador ou um grupinho restrito.

5. “O corinthiano é sofredor, graças a Deus”: mais uma bobagem. Não conheço ninguém que se orgulhe de sofrer. O Corínthians tem em sua história vitórias épicas, grandes craques, pernas-de-pau que foram alçados ao posto de ídolos, passou apor um longo jejum, e amargou um rebaixamento para a Série B, assim como outros grandes clubes. O rebaixamento não doeu mais no corinthiano do que o rebaixamento do Palmeiras doeu no palmeirense: tragédia é tragédia, independente da quantidade de vítimas. Não quantos “irmãos de fé” sofrerão ao seu lado, isso não alterará a proporção de seu sofrimento.

6. “Existem duas torcidas: uma corinthiana e outra anticorinthiana”: todo torcedor torce contra seus rivais, independente do tamanho de suas torcidas. Quando o São Paulo venceu o Mundial de Clubes de 2005, será que a torcida corinthiana assistiu a partida contra o Liverpool de maneira indiferente? Se são em maior número, é natural que os corinthianos sejam mais perseguidos pelas troças de rivais em caso de derrota.

domingo, 1 de agosto de 2010

BAIRRISMO BURRO



Estádio Serra Dourada, Goiânia, 17 de Julho último. Faixas em meio à torcida do Atlético Goianiense traziam dizeres do tipo “goiano tem que torcer para times de Goiás”, seguindo o papel ridículo de Hélio dos Anjos, que ofendeu quem torcia para times de outros estados.

Atitude burra mesmo, que indiretamente condenou os times locais a terem torcida apenas em Goiás. Somente os times cariocas, e mais recentemente, os paulistas têm torcida “nacionalizada”.

O que faz uma “torcida nacionalizada”?

Uma combinação entre estados populosos, títulos nacionais/internacionais e exposição de mídia. As transmissões radiofônicas a partir dos anos 30 e o fato de o Rio de Janeiro ser a Capital Federal até 1960, além da referência cultural que a cidade era para o restante do país ajudaram a espalhar a torcida dos quatro grandes cariocas.

A intensificação das transmissões televisivas e uma certa superioridade de títulos alavancaram a torcida dos quatro grandes de São Paulo.

Veja os números nos últimos 20 anos:

São Paulo: 12 Brasileiros, 4 Copas do Brasil e 5 Libertadores

Rio: 5 Brasileiros, 3 Copas do Brasil e 1 Libertadores

A óbvia preferência de Bandeirantes e de Record pela cobertura das equipes de São Paulo ajudaram no crescimento da torcida paulista. É a citada exposição misiática.

A estratégia bairrista só causa rejeição aos times locais, que perdem a condição de ser o “segundo time” de seus moradores.

E além do mais, se Hélio dos Anjos for treinador do Flamengo, por exemplo, vai chegar em Goiânia afirmando quês os flamenguistas locais são burros?

domingo, 18 de julho de 2010

A RELIGIÃO LEIGA DA CLASSE OPERÁRIA



A interpretação ou representação singular do espetáculo e do mundo dá ao esporte dimensões gigantescas, quase que a de uma sociedade presente dentro de diversas sociedades, algo como diversos conjuntos que fazem intersecção em diversos conjuntos.

O futebol parece ter o dom de criar um universo paralelo, tanto que a FIFA, entidade máxima do futebol mundial, se gaba de ter mais membros que a Organização das Nações Unidas, e de solenemente impor sanções a federações nacionais que sofram intervenção estatal. Sua relação com os Estados pode ser a de enfrentamento, quando não aceita que seus subordinados escape de seu controle total, embora seja mais conveniente a aliança para o fortalecimento do seu poder e a quem a ele se associar.

Hilário Franco Júnior traça um paralelo entre a FIFA e o Vaticano, focando a organização hierárquica de ambos (dioceses/bispados/ paróquias e confederações/federações/clubes), e que têm em comum o fiel ou o torcedor comum como raiz. Tal como uma religião, a FIFA vive em função do torcedor, o fiel em na sua raiz.

Ou, como Franco Júnior exemplifica:

“Aceitando o futebol enquanto forma religiosa, os dogmas evidentemente são as regras que regem a sua pátria. Da mesma forma que não há judeu sem circuncisão, ou cristão sem batismo, ou muçulmano sem a shahada (‘profissão de fé’), não há futebol oficial sem as dezessete regras aceitas pela FIFA, espécie de Igreja encabeça toda uma hierarquia de arcebispados (confederações), dioceses (federações), paróquias (federações locais), inquisidores (juízes) e clérigos (jogadores filiados). O rito do futebol é praticado por um número fixo de oficiantes e inquisidores com apoio de numerosos auxiliares laicos (...), e acompanhada ppor uma multidão variada de fiéis (torcedores).”

Josep Blatter, presidente da FIFA, e Bento XVI, sumo-pontífice, sabiamente seguem os rituais de seus antecessores, João Havelange e João Paulo II de viajar como missionários espalhando a sua causa e arrebanhando mais fiéis, com uma diferença clara: o Vaticano é um Estado estabelecido, reconhecido pela comunidade internacional e guardião de uma instituição milenar (a Igreja Catolica), enquanto a FIFA é apenas a normatizadora de uma instituição que foi criada no alvorecer do século XX, e que é “guardiã” de um esporte que foi sistematizada em meados do século anterior. Não por acaso, como bem definiu Eric Hobbsbawn, o futebol seria a “religião leiga da classe operária”.

Se críticas definem a religião como alienada ou alienante, o futebol é seu correspondente laico, é tentador e simplista relacionar o esporte a um instrumento de alienação. Mas, assim como o advento da Teologia da Libertação foi um oxigênio para o hermético pensamento da cúpula eclesiástica na segunda metade do século XX, algumas posturas contestadoras foram marcantes: jogadores engajados em movimentos politizados, de personalidade forte, capazes de enfrentar dirigentes, treinadores e jornalistas recebem pechas de encrenqueiros, mesmo quando exigem direitos básicos, como pagamento de salários em dia e condições adequadas de trabalho.

A globalização do jogo trouxe consigo a globalização da imagem de pessoas e marcas, quando as primeiras não se tornam as segundas, e do atleta é cobrado que se enquadre dentro do chamado politicamente correto, tanto fora de campo como dentro dele.

Embora se admire contestadores, a hierarquia conservadora do esporte (tão conservadora quanto a cúpula romana) o faz através de discursos hipócritas que contradizem com a execração a quem submete os indesejáveis rebeldes por dentro. Religiosos reformistas, mas admirados por fiéis são elogiados após a sua morte, assim como o Vaticano fez com adeptos de correntes reformistas. A hierarquia futebolística é rígida e vertical, e por vezes arcaica, mas é sobre ela que a FIFA se sustenta, encontrando espelho nos seus filiados. Blatter, quando ainda era secretário-geral, reagiu como indiferença à proposta de criação de um sindicato internacional de jogadores: “A FIFA só dialoga com federações e confederações, não com jogadores”. Reagiu, soberba e laconicamente. Contestadores normalmente são admirados quando morrem ou mais raramente, suas idéias são aceitas.

Na doutrina católica, santos são exemplos de fé e de vida. Seus feitos e ensinamentos são espelho para gerações posteriores, mesmo que durante a sua vida, não fossem reconhecidos como tal: Joana D’arc foi queimada como herege, para depois ser canonizada somente séculos depois, enquanto a canonização de João Paulo II já era dada como certa antes mesmo de sua morte.

E ao relacionar religião e futebol, é possível encontrar a adoração como ponto em comum: um praticante, principalmente pelo seu desempenho no jogo, já é alvo de admiração por parte de seus seguidores, o que pode ampliar em face ao seu comportamento pessoal e profissional.
Curiosamente, os tipos “encrenqueiros” recebem especial admiração.

Por outro lado, santos normalmente são o são considerados após a sua morte: a morte parece reforçar a áurea de sua santidade; e jogadores idolatrados sofrem de um processo controverso após a sua retirada dos gramados, algo que mistura aumento de seu heroísmo, uma ampliação mítica de seus feitos combinada com o esquecimento de seus erros, combinado com uma certa dose de esquecimento ou negação por parte de gerações mais jovens

domingo, 11 de julho de 2010

MEU SEGUNDO TIME NA ESPANHA




Todo torcedor tem o seu segundo time, mesmo no mesmo campeonato que disputa. O meu é o Athletic Bilbao. Mais que um segundo time, o que ume Barça e Athleti é a rivalidade com o Madrid.

O Atheltic de Bilbao é o mais exótico time de futebol da Europa. Por 80 anos, o lendário clube conseguiu se manter na primeira divisão da Espanha, colocando em campo exclusivamente jogadores bascos. Por quanto tempo continuará resistindo às tendências da globalização?

Eu vos apresento um clube de futebol cujo significado vai muito além do futebol. O Athletic Club Bilbao, ou, simplesmente, Athletic Bilbao não é apenas um clube, não é mais um time como tantos outros que existem no mundo do futebol moderno. O Athletic Bilbao é um ícone, o símbolo emblemático da identidade de seu povo. O Athletic é a expressão de um povo, é a representação de uma causa, de uma luta... Luta por liberdade e autodeterminação.

O Athletic Bilbao é um clube basco, ou seja, situa-se na região do chamado País Basco, na Espanha. Os bascos travam uma luta histórica contra o poder central de Madrid há séculos, e esta luta ganhou um corpo nacionalista nos fins do século XIX, com a fundação de grupos nacionalistas bascos. Em plena ditadura fascista de Franco, o povo basco e sua região foram massacrados pela opressora força da ditadura franquista. Mas o povo permaneceu na luta, e o Athletic Bilbao se manteve de pé.

O Athletic Bilbao prima por um princípio básico: só veste o manto vermelho e branco quem nasce na denominada Euskal Herria, a terra dos bascos. Isso compreende o País Vasco (região autônoma espanhola), Navarra e Iparralde (País Vasco francês). Além disso, também aceitam jogadores FORMADOS no território basco, nas "canteras" de algum clube basco (como o Aranzubia, por exemplo).

Quem não for da Euskal Herria ou não tiver sido formado nas “canteras” de algum clube basco, não pode jogar pelo Athletic. Espanhóis ou franceses podem jogar pelo Atlhetic, mas têm que ser espanhóis e franceses nascidos na região que compreende o território da Euskal Herria (País Basco), um exemplo disto é Bixente Lizarazu, campeão do Mundo com a seleção francesa de 1998, nascido na região basca francesa (Iparralde), e que jogou pelo Athletic.

Fundando em 1898, o centenário Athletic é um dos clubes mais tradicionais da Espanha. O Athletic jamais caiu para a segunda divisão, sempre esteve na elite do futebol espanhol. O seus estádio, o San Mamés, é um dos mais antigos da Espanha, foi o único a receber jogos em todas as edições da primeira divisão espanhola.

No ranking histórico da primeira divisão espanhola, o Athletic Bilbao é o 3º colocado, ou seja, na pontuação geral de todas as edições do campeonato espanhol, o Athletic só fica atrás dos milionários Real Madrid e Barcelona.

A maior goleada aplicada em jogos do campeonato espanhol pertence ao Athletic e não foi em cima de um clubezinho qualquer, foi contra o Barcelona: Athletic 12x1 Barcelona. O Athletic é um dos maiores campeões na Espanha, são 8 campeonatos espanhóis e 24 Copas do Rei (o segundo maior vencedor da história, perdendo apenas para o Barcelona).

Por falar em Copa do Rei, a final da última temporada (2008/09) envolveu o Athletic Bilbao e o Barcelona. O vencedor se tornaria o “Rei de Copas”, pois ambos tinham 24 títulos.

Embora de forma mais moderada que os bascos, os catalães também nutrem um sentimento nacionalista e uma luta contra o poder central de Madrid. A final marcou o encontro de dois clubes que representam as bandeiras de lutas de suas “nações”. De um lado o Athletic Bilbao, uma verdadeira seleção de bascos, do outro o Barcelona, uma seleção milionária, repleta de estrangeiros, porém um símbolo para o seu povo.

Dois momentos foram marcantes:

1. Na execução do hino nacional da Espanha, bascos e catalães se juntaram e, em uníssono, vaiaram o hino que representa o centralismo e a repressão madrilista. A televisão espanhola, neste momento, cortou o áudio da transmissão na ridícula tentativa de esconder a realidade. Sem dúvida, foi um momento único e histórico.

2. O Athletic saiu na frente e depois sofreu a virada. Mesmo com o jogo praticamente perdido, os seus bravos torcedores continuavam a cantar e a apoiar o time, em reconhecimento ao esforço de terem chegado tão longe. Cantavam muito mais alto e faziam uma festa muito mais bonita que os próprios torcedores do Barcelona. Ao fim da partida, os campeões do Barca foram ao encontro da torcida basca e a reverenciou, em um claro sinal de respeito e admiração.

Sinceramente, torci contra o Barça. O time não precisava da Copa do Rei. A Liga já estava na mão, a Champions estava próxima, mas o título da Copa do Rei era importantíssimo para o Bilbao, que não vence um torneio nacional desde 1984.

Esse ano, o time batalha por uma vaga na Liga Europa, embora chegasse a sonhar com uma vaga na Liga dos Campeões. Ano passado, a derrota na final da Copa do Rei não foi uma tristeza em si: o time foi goleado por 4 a1 pelo Barça, mas saiu aplaudido não só pelos seus torcedores, mas também pelos torcedores rivais.

domingo, 4 de julho de 2010

O CAMPEONATO SEM FIM



A HISTÓRIA DO CAMPEONATO BRASILEIRO DE 1987

Em 1986, a CBF conseguiu (des) organizar o mais bagunçado Campeonato da história (e isso, amigos, é um feito). Era um monstrengo com 80 clubes divididos em 8 grupos de 10 – quatro de elite, quatro menos votados.

Classificavam-se para a segunda fase os sete primeiros dos quatro primeiros grupos (28 clubes) e mais os vencedores dos grupos inferiores (4). E, para temperar com ácido a feiúra deste rostinho, ali pelo fim da primeira fase uma decisão do STJD (ele já existia) deu ao Joinville pontos de um jogo contra o Sergipe (por causa de doping). O Vasco, eliminado por isso, entrou na justiça comum para cassar a decisão. E conseguiu.

Para evitar uma guerra de liminares, a CBF tentou desclassificar a Portuguesa, por conta de um problema com ingressos. Os clubes paulistas reagiram solidários e ameaçaram boicotar a segunda fase. A entidade máxima, pois, encontrou uma solução salomônico-genial: botar todo mundo pra dentro. A segunda fase passou a ter 33 times. O problema é que com número ímpar de equipes ficou difícil fazer a tabela.

O detalhe a observar: antes do Campeonato, e por pressão dos clubes, o Conselho Nacional de Desportos (CND) e a CBF acertaram que 1986 seria “classificatório” para 1987. Dos 44 times dos módulos de “cima” do torneio – 24 seriam classificados para a primeira divisão do ano seguinte. A confusão jurídica implodiu essa combinação – e evitou que dois times grandes disputassem a segundona num suposto campeonato de 1987 (Botafogo e Coritiba).

O caos de 1986 foi uma espécie de gota d’água.O primeiro ato foi da CBF que, atolada em dívidas, simulou arrego dizendo que não tinha grana para organizar o campeonato de 1987. O recém-fundado Clube dos 13 – entidade que unia os 13 maiores clubes do país (os quatro grandes de Rio e São Paulo, os dois grandes de MG e RS e o Bahia) – avisou que organizaria sozinho a competição – e a chamaria de Copa União.
A competição teria 16 times (os 13 do clube e os convidados Coritiba, Goiás e Santa Cruz), seria rentável e prometia uma nova era – com estádios cheios e tabela organizada.

Pressionada, a CBF voltou atrás – desistiu de desistir – e disse que organizaria sim o campeonato. A CBF, apoiada pela FIFA (que não pode nem ouvir falar em secessão), ameaçou desfiliar os revoltosos.

Para viabilizar o campeonato, um acordo foi costurado – e assinado pela CBF e pelo Clube dos 13 (signatário Eurico Miranda, então vice-presidente do Vasco e da entidade). Pelo acordo, a Copa União seria o módulo verde de um campeonato com quatro módulos (os outros seriam o amarelo, o azul e o branco).

Os módulos verde e amarelo teriam um cruzamento para determinar os campeões brasileiros – algo que, tecnicamente, não fazia sentido nenhum. Aliás, outras coisas não faziam sentido técnico – Guarani e América-RJ, respectivamente vice e terceiro em 1986, jogariam o módulo amarelo. O América, indignado, recusou o rebaixamento – e o módulo teve apenas 15 equipes.

O Clube dos 13 assinou o acordo – mas combinou internamente que roeria a corda. Pode-se questionar, hoje, a ética do São Paulo ao inserir “penta” ou “hexa único em camisas comemorativas tendo sido um dos signatários do “acordo a não cumprir”. Como pode se questionar a ética de quem assina um papel já sabendo que vai rasgá-lo.

O que pouca gente recorda é que pouco mais de um mês depois – no dia 15 de janeiro de 1988 – houve uma reunião do Conselho Arbitral, formado pelos clubes, na qual foi proposta oficialmente a modificação do regulamento –para abolir o cruzamento. Nos termos da lei, o regulamento só poderia ser modificado se houvesse unanimidade. Dos 32 times inscritos (16 de cada módulo) – 29 compareceram e votaram. Sport, Guarani, Náutico, Fluminense e Vasco votaram contra a mudança – impedindo-a na teoria. O CND considerou porém que a maioria bastava e proclamou o Flamengo como campeão.

A ópera-bufa não tinha terminado. A CBF ignorou o CND e marcou as partidas do cruzamento – que era um quadrangular onde todos se enfrentavam. Depois de duas vitórias por W.O. para cada– Sport e Guarani se classificaram para a decisão. No primeiro jogo, empate em 1 a 1 em Campinas. No segundo, no dia 7/2/88, vitória do Leão por 1 a 0. A proclamação do CND abriu caminho para que o Sport acionasse judicialmente a União – pois o Conselho era um órgão do governo federal.

Três dias depois do resultado em campo, o Sport entrou com uma ação judicial declaratória na décima vara federal de Pernambuco pedindo o reconhecimento do título. Na ação, o Leão acionava a União, o Flamengo, o Inter e a própria CBF.

A sentença do caso – favorável ao Sport – só saiu em 1994. A União apelou e perdeu em segunda instância em 1997. Novo agravo de instrumento subiu para o Superior Tribunal de Justiça – que em 1999 manteve a sentença inicial.

Em 2001, venceu o prazo para que o Flamengo (ou qualquer parte) recorresse (para isso seria necessário apresentar alguma evidência nova para reformar a sentença definitiva). Em suma, é uma sentença transitada em julgado que não pode ser modificada. Muito por isso, a CBF não tomou a salomônica decisão de repartir o titulo de 1987. E, ironia ou não, hoje o Sport é membro do clube dos 13 – e não abre mão de jeito nenhum de ser considerado campeão único do campeonato sem fim.


Em 1988, a paz foi selada… e a CBF organizou um campeonato com apenas 24 clubes. Sem o rompimento do clube dos 13 – dificilmente o número de participantes seria reduzido – e continuaríamos patinando em dráculas político-deficitários. Em 1988, por causa da revolta do ano anterior, essa camisa-de-força foi enfim rompida – e com algum bom senso. Guarani, Sport e America-RJ foram incluídos na primeira divisão – e o campeonato foi disputado com um número razoável de clubes – 24.

Após esse muito breve resumo, que pergunta o humilde, imparcial e isento leitor daria para a pergunta… “Quem é o verdadeiro campeão brasileiro de 1987?”
Alternativas abaixo:

a) O Flamengo, claro, pois disputou o verdadeiro campeonato, enfrentou os melhores times e avisou desde sempre que não aceitaria o patético cruzamento contra times que enfrentaram babas como CSA, Rio Branco-ES, Bangu e Criciúma. Foi o representante da mudança no futebol brasileiro – que provocou o primeiro avanço em eras, começando a implodir o sistema feudal das federações e marcando uma posição histórica, reconhecida pela grande imprensa na época – que produziu inúmeras manchetes com o “tetra” rubro-negro.

b) O Sport, claro, pois cumpriu o regulamento acordado com todos os clubes e entrou em campo como previsto para o cruzamento. E foi proclamado campeão pela organizadora do campeonato – disputou a Libertadores no ano seguinte e, mesmo ignorado pela mídia do eixo Rio-São Paulo, foi consagrado por sua torcida e pela imprensa pernambucana. Além disso, que culpa tem o Leão se o adversário preferiu marcar uma suposta posição a cumprir as regras que ele mesmo assinou?

Obviamente, a escolha é livre – e interessa menos. Essa é uma discussão eterna. Mas meramente levantá-la provoca irritação em ambos os campos – o presidente do Sport ameaçou processar quem chamasse o Flamengo de hexa e foi soterrado por manchetes . Ao torcedor do Leão, vale anotar que, se o titulo fosse do Sport, as manchetes seriam bi – porque elas são leituras do que diz a torcida.

Na época, a CBF tinha um troféu, a chamada taça das bolinhas – que deveria ser entregue ao primeiro clube que conquistasse cinco vezes o titulo nacional. Ele foi entregue pela última vez em 1992… justamente ao Flamengo, que conquistava ali o que seria seu quinto titulo se contarmos 1987 (a mudança do troféu no ano seguinte não sugere alguma coisa?).

Quando o São Paulo ganhou seu quinto titulo, em 2007, os dirigentes do tricolor paulista pediram a taça. Mas a CBF não deu. Ela continua guardada num cofre da Caixa Econômica Federal. Agora, a CBF pode até fazer duas réplicas – e entregar uma para o São Paulo e outra para o Flamengo.

Hoje não temos mais campeonatos com centenas de clubes – as Séries A, B e C estão organizadas – e a D começa a existir. Podemos questionar ou debater se os pontos corridos são sensacionais ou não – mas virada de mesa saiu do dicionário dirigente – o que, pode não parecer, mas é um imenso, imenso avanço.

Em qualquer discussão futebolística citar gregos significará desagradar troianos. A partida maior nunca termina – e ser imparcial joga contra tudo o que o torcedor sente, vive e aprende desde a primeira vez em que entra num estádio. A multidão liberta nosso Roberto Jefferson interior – na arquibancada, são despertados nossos instintos mais primitivos. Queremos trucidar o time adversário – ganhar de muito, pisar – se possível humilhando.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

OLÉ!



www.balipodo.com.br

25/07/07

Cultura & Mídia

Olé

Poucas publicações esportivas estrangeiras são tão conhecidas no Brasil quanto o Olé. O jornal com sede em Buenos Aires sempre entra na pauta da imprensa brasileira por supostamente representar o que pensa o torcedor argentino. E não é sem motivo. O diário portenho nunca escondeu sua linguagem polemista e não se cansa de cutucar sempre que um argentino vence um brasileiro e de fingir ignorar quando ocorre o contrário. Isso deu à publicação uma fama de popularesca, o que não é completa verdade.

De longe, parece realmente que o Olé tem baixo nível. As capas são chamativas, com manchetes em letras garrafais e conteúdo debochado e provocador. Em bom português, é “linguagem de torcedor”, passional e sem a imparcialidade exigida de um profissional de imprensa. No entanto, o argentino não vê a provocação explícita – inclusive entre seus clubes – como algo necessariamente sensacionalista. Para eles, é algo inerente ao futebol (observação: nesse quesito, o diário argentino comete um grande erro, que não pode ser perdoado em nenhum sentido: passa do limite da provocação de bom gosto ao chamar os brasileiros de “macacos”. Qualquer brincadeira que tem tom racista deve ser condenada).

Ver as capas apenas como polêmica e populismo pode esconder alguns méritos do jornal. É inegável que muitas delas são criativas e bem humoradas, com coragem para colocar notícia ruim como chamada principal ou escondê-la despudoradamente como forma de brincar com a “tragédia”. O futebol é uma brincadeira acima de tudo, fato que não é esquecido pelos argentinos.

De qualquer maneira, o lado bom do Olé não são as capas. Nas páginas internas, a cobertura esportiva tem pontos bastante positivos. Os textos têm qualidade invejável se comparado com seus congêneres brasileiros, com relatos de jogos quase ensaísticos, relatando o clima da partida ao invés de apenas descrever lances. A profundidade do noticiário é acima da média, com quantidade razoável de análise e sem enrolações típicas de quem precisa preencher página por obrigação e não sabe mais o que escrever.

É claro que Boca Juniors e River Plate têm mais atenção que os demais clubes. Ainda assim, as equipes pequenas recebem uma dedicação raramente vistas no Brasil, até porque fica evidente que o Olé sabe que torcedores desses times também compram jornal. Assim, se o Banfield vencer no único jogo da sexta (quando as rodadas são abertas na Argentina), há uma chance de a capa ser dos banfileños.

Quem ler o Olé com cuidado e a mente aberta, verá um jornal com vários méritos. Não representa uma revolução em jornalismo esportivo, com linguagem inovadora que deva ser idolatrada por todos. Mas certamente o diário portenho é muito mais do que um monte de páginas populistas com uma capa polêmica para chamar a atenção.
Ubiratan Leal

domingo, 20 de junho de 2010

CRÔNICA DE UM DESASTRE



Quando eu era criança, eu já era louco por futebol, isso eu nunca neguei. Além das primeiras peladas na rua ou na escola, ou das primeiras caneladas dentro de casa, o contato com o esporte bretão se dava nos estádios aqui da Grande Vitória. Estádio, obviamente, se trata de eufemismo: alguns eram campos alambrados e com algumas arquibancadas. Em especial, o Engenheiro Araripe, o estádio da Desportiva. Pelo menos uma duas ou três vezes por mês, eu estava lá, levado pelo meu pai. Se ele não conseguiu fazer com que eu torcesse pelo Fluminense, pelo menos conseguiu fazer com que eu torcesse pela Desportiva.

Todo torcedor além do seu time de preferência, tem uma espécie de time estepe. Até os anos 90, era um time por estado: assim que me tornei palmeirense, também adquiri simpatia pelo Cruzeiro, pelo Inter, pelo Coritiba, pelo Vitória, e por aí vai. A partir da citada década, a invasão de torneios europeus acrescentou um pouco mais nas minhas preferências: Barcelona, Schalke 04, Tottenham, Olympique Marseille, Ajax. Mal sabia porque escolhia esses times, mas torcia, nem que fosse para pegar o Jornal dos Sports (ou mais tarde, o Lance!) na segunda e conferir os resultados.

Talvez fosse diferente com o Barcelona: aquele time de Laudrup, Stoichkov, Koeman e Romário era genial. Pena que o baixinho ficou lá por tão pouco tempo. E o passar dos anos me fez admirar ainda mais o Barça: hoje ele está no mesmo patamar do Palmeiras na minha preferência. E do jeito que o Palmeiras vai mal, é melhor me apegar ao Barça mesmo.

Só que moro longe, muito longe ou a uma infinidade de distância desses times, menos a Desportiva. Quando eu era criança, o Sidney, xerifão da defesa jogava pelada com meu pai, e o Luiz Carlos (“Guerreiro”) era parente dos meus vizinhos. Os caras que eu via em campo, eu via na rua. Mais que isso, só os ídolos da várzea de perto de casa. Mas isso é outra história.

A Desportiva foi, até a virada do milênio, um time padrão Série B. Normalmente não tinha problemas com o rebaixamento, mas quase sempre ficava pelo meio do caminho. Em 1994, esteve perto do acesso, mas foi escandalosamente roubada em Goiás. Edmundo Lima Filho (filho de quem eu não conto), o antecessor do Edílson, tratou de classificar o Goiás por conta própria, inventando um pênalti no finzinho. Um político larápio não teria vergonha de cometer tamanha roubalheira.

Por falar em político, o presidente da Federação Capixaba, Marcus Vicente (ex-Deputado Federal, membro da vergonhosa “bancada da bola” e Secretário Estadual de Turismo), estava lá, mas o prestígio político que alardeia no cenário nacional é nulo. Sua administração é tão incompetente quanto a incompetência dos dirigentes dos clubes que ainda não apearam do poder essa decrépita gestão.

Em 1998, nova chance: disputou o quadrangular final da Série B, mas foi massacrada em Ribeirão preto pelo Botafogo local (5 a 1), quando só precisava de um empate. Antes disso, cedeu empates contra o próprio Botafogo e contra o Gama em casa. Pois bem. O ano seguinte foi o início de um novo tempo, que parecia ser de prosperidade. A Vale, que sustentava a Desportiva Ferroviária, se afastou de vez após a privatização, e a então Desportiva Ferroviária precisava de alento. E eis que apareceu Marcelo Villa-Forte, do grupo Franell, do ramo de combustíveis, que acerou a transformação da Associação Desportiva Ferroviária Vale do Rio Doce em Desportiva Capixaba S.A.

A Série B de 1999 já foi um desastre: 2 vitórias, 3 empates e 16 derrotas. Lanterna vexaminosa. Só não jogou a Série C pela virada de mesa da Copa João Havelange. O título capixaba de 2000 foi só uma ilusão. Novo rebaixamento em 2001, e outra queda em 2002, desta vez no Campeonato Capixaba. Parecia o fundo do poço. Mas dias piores viriam.

Antes disso, o vice da Segundinha Capixaba levou a Desportiva para a Primeira Divisão, onde só ficou um ano. A briga com a Federação foi só a desculpa para o Villa-Forte se livrar do brinquedinho que não agradava mais. E assim, após desistir do torneio, a diretoria não só desativou o futebol profissional como dividiu o campo em diversas quadras de society. E da Segunda Ponte eu via aquilo na esperança de renascimento. Em 2006, o time voltou para jogar a Segundinha de novo, mas conseguiu ser eliminada pela equipe amadora marrom do Tupy. Vexame.

Em 2007, novo retorno, desta vez mais consistente. Título da Segundinha, e no ano seguinte a contratação de Sávio para o time, o que foi um fracasso, mas valeu pelo retorno do ídolo 20 anos depois. No fim do ano, título da Copa Espírito Santo, em cima do Rio Branco, velho rival, que completava 23 anos sem títulos. Levantar a taça, revivendo os bons tempos, e esticar a fila do arquiinimigo. Soberbo!

Se o problema fosse restrito ao campo, ainda sim o mal seria menor. Quem vê o estádio por dentro, tem a verdadeira noção de que se trata de uma maquiagem. O campo está quase careca, os vestiários fedorentos, sala de musculação interditadas, as cadeiras em péssimo estado de conservação. Ano passado, duas torres de iluminação foram à leilão, sem compradores, para pagar as dívidas.

O técnico Cosme Eduardo, co-responsável pelo (des)planejamento, antes otimista na recuperação, desistiu de escrever a cartinha para o Papai Noel, e agora pede socorro para o poder público. Aquela velha história que “o-futebol-faz-parte-da-cultura-e-que-oferece-lazer-e-entretenimento-para-a-população...”, e mais algumas bobagens. Um grupo, chamado de Amigos da Desportiva, buscou apoio na iniciativa privada. De cem empresas procuradas, seis responderam à sondagem. Todas de forma negativa.

De tudo o que ele disse, pelo menos algo deve ser considerado: há mais de duas décadas o futebol capixaba vive às custas de mecenas, especialmente empresários e prefeituras do interior. O Rio Branco só não está pior que a Desportiva porque foi salvo pela venda do eternamente inacabado estádio Kléber Andrade para o governo estadual. Mas é bom ressaltar que a grana foi bem investida, e sendo assim, o jejum de 25 anos foi quebrado

O clube chegou ao fundo do poço, mas seus dirigentes parecem cavar o buraco para que ele se aprofunde. O rebaixamento em 2010 não foi obra do acaso.

A Desportiva, para não perder o trem da História, embarcou em uma locomotiva descarrilhada, comandada por um aventureiro que mal sabe pilotar um Ferrorama.